ENTREVISTA COM WANDER WILDNER:
“Eu tiro sarro de várias coisas o tempo inteiro”
Wander Widner conversou com a equipe do Pijama Show sobre sua trajetória musical, influências, Os Replicantes, sua carreira solo, diferenças do público e muito mais.
Por: Ricardo Freddo
Imagens: Ricardo Freddo
Edição: Djatlantyc
(Ricardo
Celso)
Ricardo: Quais são as suas influências?
Wander Wildner: A influência da minha carreira, apesar de vir depois dos Replicantes, ela é o que eu ouvia quando era pequeno a influência da minha carreira solo, primeiro, era a Jovem Guarda, música brega, que eu ouvia no rádio quando era pequeno. Depois quando era jovem eu ouvia os grupos Gaúchos que tinham, tipo, Almôndegas, eram vários grupos, não eram bandas, era mais trios e quartetos, no Almôndegas até tinha bateria, mas muitos não tinham, eram grupos folks, essa é a influência do meu trabalho. Com Os Replicantes a influência é Sex Pistol, Klech, Dames.
Ricardo: Hoje, qual é a diferença do público dos anos 80 para o do século XXI?
Wander Wildner: Antigamente era diferente tinham dois partidos, dois times de futebol, as pessoas eram mais divididas, a divisão era mais para uma ou outra coisa, um era governista outro era comunista. Hoje a diferença é o neoliberalismo, digamos que naquela época era mais fácil você optar por uma outra forma de viver, que naquela época era o capitalismo, você era contrário ao capitalismo você vivia de outro jeito, hoje, por exemplo, é diferente, não é tão claro isso, essas divisões não são claras, o neoliberalismo você não vê ele claramente, ele toma mais conta das coisas. Os jovens hoje são muito diferentes do que era na minha época, nos anos 70, a diferença era muito grande, hoje, o neoliberalismo ele endeusa os artistas e músicos, as pessoas são loucas pelos músicos, claro que isso é antigo, mas, por exemplo, quando Os Replicantes começaram, as pessoas não pediam autógrafos, porque não era uma coisa comum, hoje o pedir autógrafo e endeusar o músico é uma coisa comum, mas ao mesmo tempo é uma coisa muito ridícula, eu não vejo sentido nenhum naquilo ali, as pessoas querer um autógrafo ou uma foto contigo, porque não me interessa a mim, só interessa a música. As pessoas acham que a gente é alguma coisa, que não é, a gente não é isso, somos pessoas normais, a gente sobe no palco para fazer um show que vai ser um momento de alegria e descontração para aquelas pessoas que trabalharam a semana inteira e querem uma festa no final de semana, sempre foi só isso, essa é a diferença, antes as pessoas nos viam como pessoas normais que subiam ao palco, e hoje as pessoas vêem todos os artistas como uma outra visão, só que eu acho estranho isso, porque a gente continua sendo as mesmas pessoas, vivendo da mesma forma e fazendo música pelo mesmo motivo: a diversão. Claro que é um trabalho, só que a gente não se acha diferente dos outros, então, isso é o que mais mudou.
Ricardo: Como foi ter gravado o Acústico MTV de Bandas Gaúchas?
Wander Wildner: Foi ótimo, até agora foi o projeto mais legal que eu já participei, porque englobava muita gente, muitas equipes diferentes trabalhando. Tinha a equipe da MTV, de som, de luz, a gravadora, as quatro bandas, era muita gente trabalhando e foi um trabalho que rolou de uma forma muito harmoniosa, todo mundo teve muito prazer de fazer aquilo, porque tinha uma igualdade entre todos, porque não tinha nenhum artista que tratam as pessoas diferente, era uma coisa muito normal, todo mundo estava trabalhando de igual para igual, foi um prazer muito grande, isso foi a coisa mais legal. Foi um projeto que durou meses até o convite, depois os primeiros ensaios, depois ver como seria feito, a gravação e depois a divulgação da MTV, tudo isso foi muito legal não teve nenhuma briga e problema em nenhum momento, um trabalho com muita gente é difícil de acontecer com harmonia, e aconteceu, pra mim foi o trabalho mais legal por envolver muita gente, aconteceu como se fosse meia dúzia de pessoas fazendo.
Ricardo: No Acústico MTV de Bandas Gaúchas, a Cachorro Grande, Ultramen e Bidê ou Balde tiveram uma participação de um convidado, só você optou por não ter, por que?
Wander Wildner: Na verdade tem a participação do Capone que estava com a sua alma, e isso pode até ser muito mais do que uma participação humana, ele não estava em carne e osso, mas estava em espírito.
Ricardo: Como foi partir para carreira solo em 1990, foi difícil?
Wander Wildner: Não, eu tinha saído dos Replicantes em 1989, e comecei a trabalhar de diretor de palco do Nenhum de Nós, pois eu queria viajar muito, mas um ou dois meses depois uns amigos me chamaram para fazer parte de uma banda, que foi a Sangue Sujo. Fiquei dois anos com à Sangue Sujo, em 1989 e 90, depois em 1990, 91 e 92 continuei trabalhando com o Nenhum de Nós. Toquei com o meu irmão em 1992, era uma dupla, e fizemos alguns shows, depois em 1993 fui para o Rio de Janeiro trabalhar com iluminação e dois caras que curtiam o trabalho dos Replicantes, sabiam que eu estava no Rio e me convidaram para fazer uma banda, que foi à Máquina Melequenta, fizemos alguns shows com o repertório com músicas dos Replicantes, Sangue Sujo e essas coisas.
Fui para São Paulo no começo de 1994, fiz uma banda com uns caras, mas não foi muito legal, e ai eu estava fazendo a iluminação de uma peça de teatro que tinha 27 atores que cantavam e eram 32 músicas de rock que tinham versões em português do Zé Rodrigues, eu vi aquilo e senti que tinha que estar lá no palco, eu estava na iluminação mas com vontade de estar palco e achei que a melhor maneira de fazer algum trabalho era voltar para Porto Alegre, em São Paulo eu tentei uma banda e não deu, e São Paulo era muito desconhecido para mim.
Eu parei e pensei “vou viver de música”, e a melhor maneira que eu tinha de recomeçar era por Porto Alegre, ai eu voltei para Porto Alegre e montei uma banda chamada Los Encarnados, que foi de 1994 à 95, mas não deu muito certo porque a diferença de idade era muito grande, eles eram mais novos, ai em 1995 resolvi que tinha que fazer carreira solo, eu fiz um show chamado “Balada Sangrenta”, e a primeira música que eu fiz foi “Bebendo Vinho”, e continuei com a carreira solo, lancei quatro discos, incluindo a coletânea que foi lançada agora que é “10 anos bebendo vinho”.
Em 2002 o Gerbase saiu dos Replicantes e a primeira pessoal em que eles pensaram fui eu, eles me convidaram, pois eu estava morando em Porto Alegre na época, e aceitei, pois sou amigos deles, gosto deles e da música dos Replicantes, e como eu trabalho com música era mais uma atividade. E desde então já fizemos muita coisa, três discos, fizemos uma turnê na Europa em 2003, lançamos um DVD que mostra a turnê da Europa e agora gravamos uma outra coletânea com mais sete músicas antigas, porque, as músicas antigas não tinham saído em CD, só em uma coletânea, gravamos seta músicas antigas e sete novas, a coletânea se chama “Old School Veterans Braziliasta”, que é o nome de uma das músicas, que fala da primeira turnê que a gente vez na Europa.
Ricardo: Tem diferença do público brasileiro para o público Europeu?
Wander Wildner: Tem, pode-se dizer que eles são mais aventureiros, em certo sentido é, pois eles vão ao show sem conhecer a banda, eles vão no show porque é uma banda de Old School, que o Punk Rock, uma boa parte da nossa influência é o Punk rock de 1977, que se chama de Old School, lá eles chamam assim. Por isso eles vão para os shows, vão sem conhecer as bandas. Isso é diferente no Brasil, o público brasileiro vai por causa da fama, poucas pessoas vão em shows, lá também, mas as pessoas vão pela aventura, porque moram em cidades pequenas da Alemanha e na terça-feira vai ter um a banda do Brasil que vai tocar, é claro que eles vão ir ver, daí eles ficam olhando, e a gente começa tocar e eles começam a se mexer, no meio do show eles estão dançando e no final do show eles querem cantar, sempre foi assim, todos os shows foram assim.
Ricardo: A primeira turnê que Os Replicantes fez na Europa, foram feitos 24 shows em 27 dias, como é esse pique, é cansativo?
Wander Wildner: Não, é mais fácil que fazer uma turnê no Brasil, porque lá a gente tinha uma van, então, tudo era de van, aqui a gente tem que pegar táxi para descer do ônibus e ir para o hotel, rodoviária, e passa o som e vai para o hotel. Lá não, você está dentro da van vai para o show e sai direto dormir, na maioria das vezes dorme aonde é show, você fica o tempo inteiro dentro de uma van, vendo uns lugares maravilhosos que você não conhece, não fica nenhum pouco cansativo, e por fazer um show por dia, você fica com uma endorfina o tempo inteiro dentro do teu corpo, você sempre fica motivado, não é nada cansativo.
Ricardo: Como é ser o rei do Punk Brega?
Wander Wildner: Isso é uma bobagem, fui eu que inventei isso para tirar sarro, é uma brincadeira, imagina. Se as pessoas acreditam, é porque não conhecem muito bem o meu trabalho, eu tiro sarro de varia coisas o tempo inteiro. O Punk Brega também é uma bobagem, porque quando eu fiz o meu primeiro disco, eu fui fazer um realise para imprensa e achei que tinha que rotular de alguma coisa, e fiquei pensando “qual é a característica do meu trabalho?”, daí eu vi que tinha um pouco do Brega e do Punk Rock, as músicas tinham um pouco dessa mistura, ai eu chamei de Punk Brega, mas foi só uma bobagem, não leva há sério essas coisas, não tem nada além da música, tem um pouco dos vídeos, porque eu gosto de fazer vídeos, Os Replicantes também, a gente sempre fez muitos vídeos Clipes, a gente gosta. Antes de fazer música, eu trabalhei com super 8, com teatro, iluminação e com vídeo de televisão, tudo isso antes dos Replicantes, então eu gosto muito disso. Mas é só música e imagens, só isso, se alguém achar que a gente é algo a mais do que isso, não, não há artista, não somos artistas, só faço músicas e vídeos, é um trabalho como carregar pedra ou até menos, é só isso.
Ricardo: Você tem amizade com outros músicos?
Wander Wildner: Sim, é o mesmo meio, a gente encontra as pessoas várias vezes e você gosta da música dos caras, você acaba ficando amigo de algumas pessoas, sabe, que amizade eu tenho mais com os músicos de Porto Alegre, com as pessoas que você viaja você cria uma amizade, conhecer e tocar num shows você não vira amigo, vira conhecido, para ficar amigo tem um tempo de convivência, mas a gente tem muitos amigos nesse meio, claro que tem. Eu tenho amigos em Recife, em Goiânia, tenho amigos no Brasil inteiro, porque a gente se encontra, nos fizemos o circuito alternativo, nos construímos o circuito alternativo a mais de vinte anos. Então, é obvio que eu tenho muitos amigos nesse meio, não sei se o público reconhece quem são os amigos, talvez nem reconheçam, não é por cantar uma música de alguém, que vai ser amigo. Eu não sou amigo do Júpiter Maça e gravei uma música deles, porque não interessava eles, interessava a música deles, eu conheço o Ira, encontro com eles várias vezes, mas nós não somos amigos do mesmo jeito que eu sou com outras pessoas, amizade é uma coisa que precisa de uma convivência maior.
Eu sei que muita gente acha que encontrar uma pessoa duas ou três vezes e fazer uma balada na noite se torna amigo, para mim não, você conhecer uma pessoa e trabalhar com ela, já é um passo para se tornar amigo, é obvio, mas precisa de mais coisa para se tornar amigo, já é um passo, mas a gente se torna conhecido, comparsa de uma história, e com o tempo a gente vai se tornar amigo, quanto mais você encontra uma pessoa na estrada, mais o papo vai fluindo, até se tornar amigo. Amigo é aquela coisa, você vai almoçar na casa do cara, são várias coisas, demora um tempo maior para se tornar amigo, mas a gente vai fazendo muitas amizades no meio musical.
Ricardo: Como é o Wander fora dos palcos?
Wander Wildner: No palco não tem o Wander, ou tem, mas não interessa, no placo é só música, os quatro se reúnem para fazer uma música, não interessa eu ou o Cláudio, o que interessa é o que a gente fez junto, é isso que as pessoas não entendem, é isso ai que nós somos.